raw with love

sereno:

menina morena de
olhos doces
quando chegar a hora
de usar a faca
não vou hesitar e
não vou
culpá-la,
enquanto dirijo sozinho pela beira da praia
enquanto as palmeiras acenam,
feias e pesadas,
enquanto os vivos não chegam
enquanto os mortos não partem,
não vou culpá-la,
em vez disso
vou lembrar dos beijos
nossos lábios esfolados de amor
e de como você me deu
tudo o que tinha
e de como eu
te ofereci o que havia restado
de mim,
e vou lembrar do teu quarto apertado
teu corpo
a luz na janela
teus discos
teus livros
nosso café pela manhã
nossas tardes e noites
nossos corpos esparramados juntos
dormindo
as brisas leves e suaves
imediatas e eternas
tua perna minha perna
teu braço meu braço
teu sorriso e teu
calor
que me fez rir
de novo.
menina morena de olhos doces,
você não tem
faca. a faca é
minha e não vou usá-la
ainda.

- Charles Bukowski

(via maisaltoquebombas)

“Das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
Ela venceu.”

– Charles Bukowski. (via bukowski-brasil)

“estamos sem vinho
e amor
e sorte.”

BUKOWSKI, Charles (via sereno)

(via maisaltoquebombas)

(via nitrogen)

“Na minha juventude, eu vivi todo dia com essa ideia, a ideia do suicídio. Mais tarde também, e até agora, mas talvez não com a mesma intensidade. E se eu ainda estou vivo é graças a essa ideia. Eu só pude suportar a vida graças a ela, ela foi meu suporte. “És mestre de tua vida, podes matar-te quando quiseres’’, e todas minhas loucuras, todos meus excessos, foi assim que eu pude suportá-los. E pouco a pouco essa ideia começou a se tomar algo como Deus para um cristão, um apoio, eu tinha um ponto fixo na vida.”

Emil Cioran. (via recomendar)

(via recomendar)

“Beethoven viciou a música: introduziu nela as mudanças de humor, deixou que nela penetrasse a cólera. Sem Bach, a teologia seria desprovida de objeto, a Criação, fictícia, o nada, peremptório. Se há alguém que deve tudo a Bach esse alguém é Deus. O que são todas as melodias comparadas àquela que sufoca em nós a dupla impossibilidade de viver e de morrer. […] Houve um tempo em que, não conseguindo imaginar uma eternidade que pudesse separar-me de Mozart, não temia mais a morte. E foi assim com cada músico, com toda a música… Chopin elevou o piano à condição da tuberculose. O universo sonoro: onomatopeia do inefável, enigma desenvolvido, infinito percebido e inapreensível… Quando se experimenta sua sedução, só se concebe o projeto de fazer-se embalsamar em um suspiro. A música é o refúgio das almas feridas pela felicidade. Não há música verdadeira que não nos faça apalpar o tempo. O infinito atual, paradoxo para a filosofia, é a realidade, a essência mesma da música. […] É preciso escolher entre Brahms e o Sol. A música, sistema de adeuses, evoca uma física cujo ponto de partida não seriam os átomos, mas as lágrimas. […] De alguns andantes de Mozart emana uma desolação etérea, como um sonho de funerais em uma outra vida. Quando nem sequer a música é capaz de salvar-nos, um punhal brilha em nossos olhos; nada mais nos sustenta, a não ser a fascinação do crime. Como gostaria de morrer pela música, para punir-me por haver duvidado algumas vezes da soberania de seus sortilégios.”

Emil Cioran. (via recomendar)

(via recomendar)

“Quando ouvi o astrônomo erudito,
Quando as provas, os números foram enfileirados diante de mim, Quando me foram mostrados os mapas e diagramas a somar, dividir e medir, Quando, sentado, ouvia o astrônomo muito aplaudido, na sala de conferências,
Senti-me logo inexplicavelmente cansado e enfermo,
Até que me levantei e saí, parecendo sem rumo
No ar úmido e místico da noite, e repetidas vezes
Olhei em perfeito silêncio para as estrelas.”

– WHITMAN, Walt. Folhas de Erva. (via sereno)

(via maisaltoquebombas)

(via nitrogen)

“E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traia sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma jóia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.”

– Charles Bukowski, no livro “A mulher mais linda da cidade”. Porto Alegre: L&PM, 1997 (via temploculturaldelfos)

(via prosaversoearte)

Uma definição

amor é uma luz à

noite atravessando o nevoeiro

amor é uma tampinha de cerveja
pisada no caminho
do banheiro

amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado

amor é o que acontece
uma vez a cada dez anos

amor é um gato esmagado

amor é o velho jornaleiro na
esquina que
desistiu

amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu

amor é o que desapareceu junto
com a era dos navios encouraçados

amor é o telefone tocando,
a mesma voz ou uma outra
voz mas nunca a voz
correta

amor é traição
amor é o incêndio dos
sem-teto num beco

amor é aço
amor é a barata
amor é uma caixa de correio

amor é a chuva sobre o telhado
de um velho hotel
em Los Angeles

amor é o seu pai num caixão
(aquele que te odiava)

amor é um cavalo com a perna
quebrada
tentando se levantar
enquanto 45.000 pessoas
observam

amor é o jeito que nós fervemos
como a lagosta

amor é tudo que nós dissemos
que não era

amor é a pulga que você não consegue
encontrar

e o amor é um mosquito

amor são 50 lançadores de granada

amor é um pinico
vazio

amor é uma rebelião em San Quentin
amor é um hospício
amor é um burro parado numa
rua de moscas

amor é um banco de bar vazio

amor é um filme do Hindenburg
se retorcendo
um momento que ainda grita

amor é Dostoiévski na
roleta

amor é o que se arrasta pelo
chão

amor é a sua mulher dançando
colada com um estranho

amor é uma senhora
roubando um pedaço de
pão

e o amor é uma palavra usada
muitas vezes e
muitas vezes
cedo demais.

- BUKOWSKI, Charles. Amor é tudo que nós dissemos que não era.

“eu poderia desmanchar 90 montanhas aos berros
até torná-las menos que pó
se apenas um ser humano tivesse olhos na cabeça
e coração no corpo,
mas não há chance.
rato com rato cão com cão porco com porco,
ouça o piano bêbado,
perceba o mito da misericórdia
fique quieto
pois até a voz de uma criança rosna
e nós não fomos enganados,
foi só porque quisemos acreditar.”

BUKOWSKI, Charles. Canção de amor invertida. (via sereno)

(via maisaltoquebombas)

(via nitrogen)

IMPERMANENCE - A mesquinhez.

empessoa:

image

A mesquinhez, a estreiteza imaginativa são os vícios definidores da nossa época.

Somos incapazes de escrever, ou de querer escrever, ou de saber ler sem escrever, epopeias. Em compensação, escrevemos romances.

O romance é o conto de fadas de quem não tem imaginação. Todos nós, ou inferiores, ou em momentos de inferioridade, sonhamos com atitudes (…) da vida real. Sonhamos também, é certo, com o longínquo; mas isso […] é, em todo o caso, a poesia da mesquinhez. Tout notaire, dizia G. Flaubert, a rêvé de sultanes. O ajudante de notário, porém, sonha apenas com uma sucessão de acontecimentos [ ?] em que entra a vizinha possível, o marido dela, ele galã, e assim por diante.

A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Talhar a obra literária sobre as próprias formas do que não basta é ser impotente para substituir a vida.

s.d.

“Erostratus” em ‘Páginas de Estética e de Teoria Literárias. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966′.

Grandes

Grandes são os desertos, e tudo é deserto. / Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto / Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo. / Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes /  Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas, / Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu. // Grandes são os desertos, minha alma! / Grandes são os desertos // Não tirei bilhete para a vida, / Errei a porta do sentimento, / Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse. / Hoje não me resta, em vésperas de viagem, / Com a mala aberta esperando a arrumação adiada, / Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem, / Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado) / Senão saber isto: / Grandes são os desertos, e tudo é deserto. / Grande é a vida, e não vale a pena haver vida, // Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar / Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem) / Acendo o cigarro para adiar a viagem, / Para adiar todas as viagens. / Para adiar o universo inteiro. // Volta amanhã, realidade! / Basta por hoje, gentes! / Adia-te, presente absoluto! / Mais vale não ser que ser assim. //  Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro, / E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito. // Mas tenho que arrumar mala, / Tenho por força que arrumar a mala, / A mala. // Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão. / Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala. / Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas, / A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino. // Tenho que arrumar a mala de ser. / Tenho que existir a arrumar malas. / A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte. / Olho para o lado, verifico que estou a dormir. / Sei só que tenho que arrumar a mala, / E que os desertos são grandes e tudo é deserto, / E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci. // Ergo-me de repente todos os Césares. / Vou definitivamente arrumar a mala. / Arre, hei de arrumá-la e fechá-la; / Hei de vê-la levar de aqui, / Hei de existir independentemente dela // Grandes são os desertos e tudo é deserto, / Salvo erro, naturalmente. / Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado! // Mais vale arrumar a mala.  
Fim.

Não, não quero nada / Já disse que não quero nada. // Não me venham com conclusões! / A única conclusão é morrer // Não me tragam estéticas! / Não me falem da moral! // Tirem-me daqui a metafísica! / Não me apregoem sistemas completos, não me enfilerem conquistas / Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências) / - das ciências, das artes da civilização moderna! // Que mal fiz eu aos deuses todos // Se têm a verdade guardem-na // Sou um técnico, mas só tenho técnica dentro da técnica. /  Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. /  Com todo o direito a sê-lo, ouviram? //  Não me macem, por amor de Deus! //  Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? /  Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? /  Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. /  Assim, como sou, tenham paciência! /  Vão para o diabo sem mim, /  Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! /  Para que havemos de ir juntos? //  Não me peguem no braço! /  Não gosto que me peguem no braço.  Quero ser sozinho. /  Já disse que sou sozinho! /  Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia! //  Deixem-me em paz!  Não tardo, que eu nunca tardo… /  E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Alvaro de Campos